HB News: Padre português é apaixonado por livros e vê em “Harry Potter” uma ligação a Cristo

Samuel Camacho surpreendeu seus pais com o desejo de ingressar no seminário e seguir a vocação sacerdotal. As reações iniciais foram inesperadas: sua mãe derramou lágrimas e sentiu uma profunda tristeza, mas, no fundo, ambos os pais entenderam e aceitaram, reconhecendo que essa escolha o faria verdadeiramente feliz. "Minha família é parte da comunidade cristã e entende minha decisão de dedicar minha vida a este caminho", ele compartilhou com a NiT.

Embora a fé seja um dos grandes amores de sua vida, não é o único. A literatura também tem um lugar especial em seu coração, uma paixão que se aflorou durante os estudos teológicos, pouco antes de defender sua tese. 

"Fatigado pela extensa leitura de teologia, ansiava por algo radicalmente distinto", relembra o booktoker de 29 anos, uma fusão entre amante de livros e criador de conteúdo no TikTok. Em 2019, ao visitar uma loja FNAC, um livro capturou sua atenção imediata: "Aniquilação" de Michel Houellebecq, um autor francês. "Fui atraído por ele, pois a capa o proclamava como o melhor escritor da atualidade, e realmente acredito que seja", afirma com convicção.

O livro examina as turbulências sociais, as vicissitudes da condição humana e explora o enigma do propósito da vida através de uma lente tão obscura quanto humanista. "Sua obra não guarda relação com o catolicismo; de fato, ele o critica. Contudo, foi através de Houellebecq que encontrei essa perspectiva analítica da realidade. Sua abordagem da natureza humana é incrivelmente direta", explica Samuel. 

A leitura de textos que questionam e desafiam suas convicções não o incomoda, pelo contrário, é algo valioso. "É benéfico porque é importante dialogar com os que se opõem à fé. Frequentemente, como sacerdotes, nos pegamos falando de uma visão de mundo que existe apenas em nossas mentes e não reflete a realidade. É através dessas leituras que podemos entender melhor as preocupações que afligem tantas pessoas."

Ao longo dos aproximadamente sete anos em que esteve no seminário (de 2012 a 2019), ele sentiu que se desconectou do mundo ao seu redor. Ele acredita que isso também ocorre com muitos de seus colegas. No entanto, ele conseguiu se reconectar com a realidade.

"Permanecer no curso por um longo período pode nos fazer perder o contato com o que é real. As leituras foram úteis nesse sentido também. Elas me ajudaram a enxergar novamente o sofrimento humano e as vidas que, muitas vezes, parecem sem propósito", pondera o padre originário de Faro.

Ele acredita firmemente que os livros e as plataformas de mídia social são ferramentas cruciais para se conectar com a geração mais jovem. Por meio desses canais, ele consegue entender os desejos e questionamentos dos jovens. Ele sente que é seu dever fornecer respostas e orientá-los para o caminho adequado.

Integrar-se à comunidade BookTok (onde postou seu primeiro vídeo em janeiro) tem sido um grande desafio. Não é algo natural para ele falar diante de uma câmera, e ele acha estranho ouvir sua própria voz durante a edição dos vídeos. No entanto, essa experiência tem sido benéfica para suas pregações. "Comecei a ver-me sob uma nova luz e entendi que preciso melhorar minha comunicação com os outros", ele reconhece.

No começo, ele estava apreensivo sobre entrar nesse novo ambiente, mas não se arrepende de sua decisão. Ao longo do caminho, ele tem feito o que sempre desejou: "auxiliar as pessoas em suas preocupações". "Estou em harmonia com os jovens", ele relata.

Em sua biblioteca digital, você descobrirá uma seleção de seus títulos prediletos (devorando aproximadamente seis livros mensalmente) junto com uma rica coleção das críticas de Samuel. No universo literário, ele tem uma afeição particular por dois estilos: narrativas de ficção e obras de fantasia. Ele se deleita em explorar as visões dos autores sobre futuros possíveis ou realidades alternativas completamente originais.

Ele é um admirador fervoroso da obra "Duna", escrita por Frank Herbert. Sua afeição também se estende à série "Harry Potter". "Frequentemente mal interpretada e rejeitada pela Igreja, o que me confunde. Pessoalmente, acho mais simples discutir essa narrativa e estabelecer conexões com Jesus Cristo do que com 'O Senhor dos Anéis', por exemplo", ele observa. Por meio das peripécias do jovem mago, ele encontra caminhos para engajar conversas com as novas gerações. 

Fonte: NiT Portugal

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem