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O primo irritante de Harry Potter cresceu e é um dos atores da Netflix


O rapaz tornou-se um homem elegante e um verdadeiro talento nato. Harry Melling está feliz por se terem esquecido dele.

Antes de chegar a Hogwarts para se tornar o feiticeiro poderoso que as profecias anteviam, Harry Potter cresceu como um estranho, num mundo de comuns muggles. Ignorado, desprezado, talvez ninguém tenha representado melhor o quão longe estava de onde devia do que Dudley, o primo mimado, gorducho, mesquinho e ultra irritante de Harry Potter.


Dudley era o muggle de todas as tormentas do feiticeiro. O que lhe faltava em dotes de magia sobrava-lhe em talento para o bullying. Na imensa escola de atores que saíram daquela Hogwarts, o papel de Dudley foi para um miúdo de 10 anos, sem experiência alguma: Harry Melling.

Os anos de início de carreira de Melling resumiram-se exclusivamente às adaptações da saga literária de sucesso de J.K. Rowling. Longe da atenção de colegas como Daniel Radcliffe ou Emma Watson. Podia ter sido um risco, o de ficar para sempre preso ao estigma de criança-ator, que durante as etapas de crescimento via a sua carreira desaparecer. Não foi o caso. Curiosamente, a sua transformação começou ainda naquele tempo.


Melling surgiu em cinco dos filmes “Harry Potter”. Dudley demorou até ter um pouco de redenção, mesmo sendo castigado de alguma maneira durante a história por ter sido durante anos o tormento de Harry Potter. A sua última participação foi em “Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 1” (2010), depois de um hiato de três anos. Foi tempo suficiente para que crescesse, começasse a escolher melhor o que comia e os quilos começassem a desaparecer — ao ponto de ter de ser maquilhado com próteses para assumir o papel.

Ao longo dos anos, o ator habituou-se às perguntas sobre aquele tempo. “Por vezes esqueces, porque o papel já está feito, mas na verdade não está. Ainda está presente para muita gente”, conta sobre a atenção dos fãs que ainda recebe. A pergunta que mais lhe fazem não é sequer uma pergunta, como nota o próprio: é um taxativo “mudaste tanto”. E mudou. Para melhor.


Harry tinha já a sua carreira à conta de Harry Potter quando se inscreveu numa escola de expressão dramática em Londres. Aprendeu, treinou, e durante uns poucos anos aventurou-se no teatro. Foi um tempo em que subia ao palco e na audiência talvez houvesse quem pensasse “conheço aquela cara de algum lado”. Mas não era fácil perceber de onde. Foi uma bênção quando chegou a altura de voltar ao ecrã, como o próprio realçou à revista “People”.

"Acho que tive muita sorte em ser-me permitido afastar-me do Dudley”, admitia o próprio numa entrevista recente à “Entertainment Weekly”. “Quando começas como ator em criança há certos estigmas e eu nunca quis nada disso. Só queria continuar a fazer o meu trabalho, ir estudar teatro foi uma maneira de, ainda que não fosse algo consciente, conseguir fazer essa ponte”.

2020 está a ser o ano revelação do ator, com uma série de papéis na Netflix em que se tem destacado. Começou cedo o ano como o vilão obcecado com os imortais de “A Velha Guarda”, grupo liderado por Charlize Theron, isto depois de uma participação em 2019 num episódio de “Mundos Paralelos”, série da HBO.

Entretanto, integra o jovem e talentoso elenco de “Sempre o Diabo” e sentou-se à frente de Anya Taylor-Joy para uma das séries do ano, “Gambito de Dama”. Ele, que nunca tinha jogado xadrez na vida, é o primeiro grande rival da jovem prodígio. Podemos vê-lo primeiro como o tipo com pinta de convencido que é surpreendido no tabuleiro e, anos depois, mais crescido, como o rapaz que, entre a atração e o carinho, tenta ajudar Beth Harmon a vencer o russo campeão mundial.

A minissérie valeu uma explosão no número de fãs de xadrez, fruto do trabalho de aconselhamento de Garry Kasparov e Bruce Pandolfini, que trabalhou de perto com Melling. “Passei muito tempo a tentar garantir que a forma como fazia as jogadas parecia ser a de alguém quem tinha feito aquilo a vida toda”.

O papel chegou já como confirmação do talento do ator. E este até foi um dos casos em que nem sequer teve de andar a batalhar muito em castings. Foi o próprio criador de “Gambito de Dama”, Scott Frank, que o abordou. “Conheci-o via Skype e ele contou-me esta história maravilhosa de uma rapariga a chegar à vida adulta e das personagens que ela conhece no caminho. Era um ‘sim’ claro”, recorda na mesma entrevista. “Fiquei logo viciado na história. Disse que sim sem sequer ter lido o guião”.

Foi o próprio Scott Frank quem admitiu que estava de olho nele desde “A Balada de Buster Scruggs” (2018), filme dos irmãos Cohen com um elenco de respeito. O papel foi também um marco especial para Harry Melling.

Nos anos a seguir a “Harry Potter”, o ator andou por séries discretas como “Just William” e “Garrow’s Law” e por uma série de curtas-metragens. Em 2016 surgia finalmente numa produção maior, “A Cidade Perdida de Z” (2016), mas o tal papel com os Cohen foi decisivo. O “consegues fazer isso” que lhe disseram nas filmagens foi “um momento que ficou”. Não por acaso, teremos oportunidade de o ver em 2021 em “The Tragedy of Macbeth”, ao lado de Denzel Washington na versão de Joel Coen do clássico de William Shakespeare.

Um tipo discreto

Aos 31 anos, o ator parece estar onde sempre quis: à frente do ecrã, agradecido pela oportunidade de ter sido Dudley mas feliz por as tais bochechas cheias terem sido esquecidas. Dedicado, é um tipo pouco dado às redes sociais e feliz por estar longe dos holofotes.

A sua conta no Twitter é essencialmente uma ferramenta de trabalho, para ir destacando os projetos onde entra. Na sua vida pessoal, sabe-se apenas que ainda estará numa relação com a também atriz Catherine Drury. Moram juntos há vários anos mas mesmo com a recente notoriedade não costumam aparecer juntos em eventos.

Harry Melling até tem tradição em frente às câmaras na família. O avô materno era Patrick Troughton, ator com mais de 200 papéis no curriculum, que teve como grande destaque ter sido a segunda encarnação do protagonista de “Doctor Who”, esse clássico televisivo britânico que faz parte da história da ficção-científica.

Ao que parece aos quatro anos Harry Melling já gostava de fazer teatrinhos lá por casa para a família. Mas se não fosse o tal papel irritante aos 10 anos de idade não teria começado. O resto, é como escrevia Anthony Lane, crítico da prestigiada “New Yorker”, na altura em que “A Balada de Buster Scruggs” estreou: “é curioso ver como as pessoas crescem”. É mesmo. E vamos continuar a vê-lo crescer.

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